Promessa é dívida: um post.
Monday, July 30th, 2007Algo precisa ser dito sobre o “Apagão Aéreo”. Até bem pouco tempo atrás, eu diria que há uns seis meses, talvez um pouco mais, pouco sabíamos sobre a técnica envolvida na aparentemente costumeira tarefa - ao menos para nós, minimamente endinheirados de nascença - de voar de avião. Alguns tinham uma vaga noção de que a aerodinâmica da asa é responsável por fazer com que o ar que passa por baixo da mesma seja mais veloz do que o que passa por cima, fazendo, sabe-se lá como, que o avião… voe!
Não é mais assim. O principal efeito colateral da atual crise brasileira - sim, porque atual é a crise, como sempre, aérea é só o adjetivo da vez -, não sei se é algo positivo ou não, é que surgiu aqui na terrinha uma horda de especialistas no assunto. E eu não falo desse pessoal, Presidente da Associação de Pilotos Aposentados de Jatos de Médio e Grande Porte da Região Centro-Sul de Uberaba, que já estão cansados de dar entrevistas nos mais variados noticiários da fauna televisiva brasileira. Não, estou falando de “gente como a gente”.
Semana passada, estava entrando em um ônibus (não sou tão endinheirado assim, portanto), quando ouço o seguinte diálogo entre o motorista e o cobrador do veículo, ou vice-versa: É, um absurdo o descaso das autoridades, só querem saber de super-faturar, conseguir votos, e depois que se dane, no que o outro respondeu É verdade, voar sem transponder* ainda vai, mas pousar sem grooving**, é mesmo uma tremenda irresponsabilidade…
Ou seja, viramos todos experts na arte de voar. A maior parte da população, até algumas semanas atrás, nunca tinham usado o verbo “arremeter”. Agora, difícil é encontrar quem nunca o tenha usado. Mais um pouco e estaremos ouvindo: Pedrinho, arremete logo daí, antes que sua mãe te veja e te arrebente os dentes! Ou então: Eu estava chegando em casa, quando arremeti de volta para o trabalho, ao ser informado sobre uma reunião de emergência.
O mais engraçado, entretanto, não é a pós-graduação relâmpago que todos nós fomos submetidos. Inusitado mesmo é a momentânea histeria, justificada ou não, imposta pela mídia. Agora, qualquer incidente (e não acidente, os jornais e revistas já cansaram de nos explicar a diferença), qualquer incidente por menor que seja, vira destaque no jornal: Acabamos de receber a informação de que uma caixa de Toddynho explodiu durante um vôo entre Campo Grande e Brasília. A companhia aérea ainda não informou o número de feridos.
Fatos que antes eram relativamente comuns, que não causavam a menor comoção, agora estão nas manchetes: Extra, extra, o vôo BK-35F, que taxiava junto ao aeroporto de Ipatinga, aterrisou sem um dos reversos. Não preciso nem explicar o que é reverso, né? Enfim, vocês entenderam a mensagem.

O que eu quero dizer é que coisa toda está se transformando em uma grande novela. É preciso indenizar logo as famílias das vítimas, prestar todas as homenagens. Punir os responsáveis, quer dizer, não resistindo ao trocadilho infâme, punir os irresponsáveis. Avião em condição, segundo os padrões técnicos internacionas, voa. Fora dos padrões, fica no chão. Aeroporto em condições, recebe o número de aviões determinado pela autarquia ou agência responsável. Aliás, a única coisa que eu não aprendi, até agora, com o tsunami de notícias, foi a competência de cada um dos diversos órgãos governamentais citados nas manchetes.
Gostaria que houvesse mais ação e menos falatório, menos discussão. Espero que com a chegada do Nelson Jobim, parente do Tom, as coisas comecem a ser resolvidas, sem tanta lenga-lenga, sem lero-lero. Não aguento mais economista falando de reverso, cientista político dando pitaco nas investigações, dizendo que a culpa foi do piloto, da infraero, ou, ainda, a frase que mais me irrita, “a culpa do descaso.”
Depois disso tudo, uma pergunta para os leitores assíduos desse mega-portal (?!). Alguém tem idéia, ou sabe ao menos a ordem de grandeza do número de mortos em acidentes das nossas estradas? Por dia, quantos morrem? Quantas tragédias de avião cabem dentro do número de mortos por ano, vitimados por brutais acidentes de trânsito? É mais seguro ir de ônibus para São Paulo, pegando a estrada, ou ir em um avião sem reverso? E sem transponder?
E o pessoal do tráfego aéreo? E o Renan Calheiros?
* O transponder ou transpondedor (abreviação de Transmitter-responder) é um dispositivo de comunicação eletrônico complementar de automação e cujo objetivo é receber, amplificar e retransmitir um sinal em uma freqüência diferente ou transmitir de uma fonte uma mensagem pré-determinada em resposta à outra pré-definida “de outra fonte”. (Wikipedia)
** Grooving ou strips, são ranhuras na pista, para que a água escorra, em caso de chuva, fazendo com que haja uma maior aderência entre a aeronave e a pista, diminuindo o risco de aquaplanagem. (Também da Wikipedia, com ligeira alteração de texto. Foi mais fácil encontrar esta palavra na enciclopédia em português do que na outra, a original, em inglês, o que só corrobora o que foi dito acima)

























